Porto Alegre, 01 de setembro de 2009

EDITORIAL

Soma fatídica
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Jayme Copstein



Ministro Guilherme Cassel
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O ministro do Desenvolvimento Agrário quer "atualizar" os índices de produtividade do agronegócio para tirar a terra de quem produz. É isso mesmo. Quer "atualizar" como se fosse taxa de câmbio, o que denota ignorância. Pior ainda, por obsessão ideológica, como se fazia com a História na extinta União Soviética, quando se "atualizava" a biografia de personagens, cuja importância crescera mais que o permitido.

Se o ministro tivesse falado em "corrigir" índices de produtividade poderia ser levado a sério. A produtividade do agronegócio varia para cima ou para baixo – algumas vezes tem de ser programada – segundo um conjunto de fatores, variando de condições da meteorologia à demanda do mercado, supervalorizando ou derrubando a cotação dos produtos. Ao se casar a ignorância com a obsessão ideológica, não se olha para o passado, quando o agronegócio brasileiro não era o prodígio de hoje, contribuindo com mais de 45% do PIB, mas uma caravana de oligarcas tão vorazes pelo dinheiro público quanto os demagogos de hoje, sequiosos de dividendos eleitorais e as benesses que propiciam.

As consequências de tais desvarios todos conhecemos de sobra. No Brasil, sobra memória das sucessivas crises do café, do algodão e da cana de açúcar – isso para se falar apenas em três produtos da linha de frente – que endividavam o lavrador e arruinavam a economia. Foi necessário um esforço gigantesco, atualizando – aqui cabe dizer – o ensino da agronomia e a pesquisa científica, estimulando a modernização tecnológica e introduzindo uma visão da economia de mercado.

O incrível é que o ministro do Desenvolvimento Agrária queira devolver a Nação à ignorância dos antigos oligarcas, misturada às suas obsessões ideológicas. São parcelas cuja soma é sempre fatídica.

A enésima potência

Idiotice jurídica, produto da calhordice colonizada e sempre em busca do atestado de bom mocismo, acaba de ser perpetrada no Direito brasileiro: abusos sexuais só serão processados criminalmente se a vítima apresentar queixa. Acaso a Polícia tem sido convidada de honra dos estupradores e pedófilos para assistir à violência, colher provas e remeter ao Ministério Público para denunciá-los? Ou os processos ora em curso nos tribunais contra este tipo de criminosos não começaram com queixas das vítimas ou de seus representantes à Polícia?

É que por trás da idiotice esconde-se a maroteira que se vale da ingenuidade do bom mocismo calhorda, hoje predominante no Direito brasileiro: todos os processos por crimes sexuais, ora em curso na Justiça, só terão prosseguimento se as vítimas confirmarem suas queixas, no prazo máximo de seis meses. Se for o caso que a vítima tenha morrido depois, por causas não vinculadas diretamente ao crime que sofreu, o processo é extinto. Ela não tem como ratificar a denúncia.

Não se vai considerar outro absurdo, o de revogar a proibição de sustar processo criminal, após a denúncia do promotor de Justiça, por ter a causa se tornada causa pública. Por trás de tudo, deve ter alguém com poder suficiente para mudar a lei e livrar–se da punição por seus desatinos. Como perguntar não ofende – não devia, pelo menos – para que temos um Judiciário, se a malícia de uns e a ingenuidade de outros o estão transformando em mero cartório para certificar a impunidade elevada à enésima potência?


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Índice

DOS QUATRO CANTOS DO MUNDO

Traficantes mexicanos invadem o mundo
01/09/09 ImprimirImprimir   TopoTopo


Nahum Sirotsky, de Tel Aviv


Navegando pelo internet sempre se chega a muitos dos fatos mais interessantes. O Brasil e associados da Unasul fizeram um barulhão sobre as bases americanas na Colômbia. Chávez, da Venezuela, é como um sininho que quando tocado reúne o rebanho. O que ele quer, é só bater o pé e consegue.

Lula recorre ao jeitinho, algo nosso que não é muito praticado pelos vizinhos de língua espanhola. É fantástico o jogo de corpo do nosso presidente. Mas Chávez não se impressiona com sutilezas. Não dá para acreditar que ele queira uma briga com os americanos. Os maiores clientes de seu mercado de petróleo.

O contexto em que Fidel assumiu o controle de Cuba mudou muito. Não há uma Guerra Fria, nem Chávez tem o carisma de Fidel e do falecido Che Guevara para ser figura-símbolo de ideias. Também não creio que Lula possa atrair o apoio da opinião pública brasileira como foi o caso de Fidel. Mas é o que ele tenta.

A Colômbia é a maior produtora mundial de cocaína que tem seu maior mercado nos Estados Unidos. O Brasil é um dos grandes consumidores. A droga é a fonte de recursos da guerrilha colombiana. A violência urbana no Brasil tem seu principal fator no negócio da droga. Não é segredo que a tropa brasileira especializada em guerra na floresta, e internacionalmente reconhecida como uma das melhores, tem como principal missão enfrentar os traficantes que se infiltram na Amazônia. Foi de estranhar a prioridade do Unasul em discutir a questão das bases americanas na Colômbia. E ignorar a ameaça representada pelos traficantes brasileiros assentados nas favelas e morros cujo poderio as autoridades nacionais não conseguem neutralizar.

No "GlobalPost.co", leio uma matéria que afirma que "o cartel mexicano se globaliza". Todd Bensman escreve que nos dias correntes são as máfias mexicanas as mais audaciosas e criativas. Para começar, conforme se depreende de relatório do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas (United Nations International Narcotics Control Board) os traficantes mexicanos estão ativos até em Bagdá. De acordo com Todd, o seu melhor negócio é a venda de metanfetamina no mercado americano, Eles deslocaram grupos para os chamados Estados fracassados como Somália, Congo e países muçulmanos de menor importância. Tal informação também é atribuída ao DEA, "U.S.Drug Enforcement Administration", ativa pelo mundo. A DEA desempenha importante papel no combate à droga no mundo.

Uma pesquisa mostra que a metanfetamina é conhecida como "speed". Um psicoestimulante que ao chegar ao cérebro dispara gatilhos que levam à euforia, insônia, queda de apetite e até anorexia. Ele estimula o desejo sexual e sustenta o ato por tempo anormal. Cria sensação de aumento de energia, complexo de superioridade e agressividade. Pode levar à paranoia. Mas, ao prolongar o tempo do ato sexual pode acabar impedindo a ejaculação. Excitado a ponto de descontrole o indivíduo esquece o uso da camisinha o que multiplica os casos de Aids que mata mais do que a gripe suína.

O vício é inevitável. A droga, que pode ser injetada ou fumada, destrói o indivíduo. Despreocupando-se com a higiene, o viciado acaba perdendo os dentes ou sofrendo de anorexia e perda do autorrespeito. Da euforia inicial, o indivíduo chega à depressão. Vira um trapo. Tudo isto é uma descrição que apenas se aproxima da verdade. Mas a droga sendo mais barata do que as outras é também mais acessível. Um sucesso de venda. Um produto químico relativamente simples de se fabricar. Um pó branco. Menores de idade estão entre seus consumidores. Existem estatísticas americanas a respeito da droga.

Foi para minimizarem os riscos que os mexicanos se instalaram em países onde os governos não dispõem de meios para controlar coisa alguma. E países sob o controle de ditadores são "convencidos" a não criar dificuldades. O lucro é o bastante para financiar qualquer despesa. E no México o cartel tem de enfrentar as forças armadas e de seguranças do governo Calderón, que conta com apoio americano. Em seus novos centros de produção, eles importam os elementos químicos que se combinam no "speed" e não precisam recear nada. O produto vai para os mercados por todas as vias possíveis.

Os países signatários da Convenção das Nações Unidas contra o comércio de drogas ilícitas, cuja origem é do início do século passado, em outras palavras não impediram coisa alguma - conseguem capturar remessas, mas não impedir que cheguem aos consumidores. Existem informações sobre traficantes percorrendo África, Oriente Médio e adquirindo as quantidades dos componentes necessários para a combinação da metanfetamina e seus gigantescos lucros. Mais do que a coca colombiana.

Os mexicanos se apresentam como representantes de empresas legítimas. Os agentes americanos procuram identificá-los e impedir que exportem para os ansiosos consumidores americanos. É um trabalho sem fim previsível. O Cartel mexicano que está em todas topa tudo. É muito dinheiro em jogo.


Nahum Sirotsky é correspondente de Zero Hora no Oriente Médio e colunista do portal “Último Segundo”.


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Caderno Dois

Matinas
03/05/10  TopoTopo

Neide Archanjo


Alegra-me este setembro
com rosto de agosto:
céu plúmbeo ventos arados
algumas chuvas crescendo
figos úmidos e brandos e afáveis
mais estes insetos em bonança
gordos gatos.

Deus sorri
e deslocam-se ângulos
presenças
estados de espírito.
Renascem lembranças.

No corpo
o pássaro da pele
emplumado canta.




Mural

Infraestrutura sanitária, a marca do atraso
03/09/10  TopoTopo

Josef Barat (*)


Ampla matéria do Estado (Brasil tem 34,8 milhões de pessoas que vivem sem coleta de esgoto, 21/8, A25) abordou o retrato desolador da infraestrutura sanitária no Brasil, segundo pesquisa divulgada pelo IBGE. Fica claro que a tão decantada 8.ª economia do mundo não consegue oferecer a grande parte de seus cidadãos a cobertura necessária de serviços de esgotamento sanitário, tratamento e disposição (continua...)