Porto Alegre, 30 de agosto de 2009

EDITORIAL

O eleitor e os eleitos
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Carlos Brickmann (*)



Antônio Palocci
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1 – Imagina-se que a política seja a segunda profissão mais antiga do mundo. Mas creio que tem muita semelhança com a mais antiga de todas.

2 – Quando se faz a chamada no Senado, os senadores não sabem quando devem responder "presente" ou "inocente".

3 – Hoje temos boas notícias da Capital. O Congresso chegou a um impasse e não consegue trabalhar.

4 – Cada vez que o Congresso faz uma piada vira lei; e cada vez que faz uma lei vira piada.

5 – Temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar.

6 – Em política, tendo ignorância e confiança, o sucesso é certo.

Errou feio, caro leitor: nenhuma dessas citações tem algo a ver com o Brasil. Todas se referem aos Estados Unidos. A primeira é do presidente Ronald Reagan; a segunda, do presidente Theodore Roosevelt; a terceira e a quarta, do humorista Will Rogers; a quinta e a sexta, do escritor Mark Twain.

Como diria o colunista Ancelmo Góis, de O Globo, deve ser terrível viver num país que vê desta maneira seus representantes eleitos.

Mas poderia ser pior: lá, um famoso humorista bigodudo, Groucho Marx, disse que jamais entraria num clube que o aceitasse como sócio. Aqui, um famoso bigodudo bem menos engraçado, mas com os imensos bigodes muito mais bem arrumados, quer ficar onde não o aceitam de jeito nenhum.

O voo de Palocci

Livre do processo, Antônio Palocci estuda seus próximos voos políticos. Não, não sai para a Presidência, mesmo se o presidente Lula decidir que Dilma não é mais candidata: as cicatrizes do caso do caseiro são muito recentes. Pelo mesmo motivo, embora possa contar com bom apoio empresarial, Palocci não pensa em sair para o governo paulista. Ou garante uma reeleição tranquila, como deputado federal, ou vai para o governo, talvez substituindo o ministro José Múcio, das Relações Institucionais. Voltar para a Fazenda, só se Mantega pedir demissão.

O árbitro-cantor-candidato

Eduardo Suplicy gostaria de ser candidato ao governo paulista (mesmo porque, se derrotado, continuaria senador). Isso explica o show do cartão vermelho, exibido depois que o jogo tinha acabado e Sarney liberado de todas as denúncias, com o voto unânime do PT de Suplicy. É difícil que consiga ser candidato.

Ei-la de novo

Quem trabalha para ser candidata ao governo paulista, e com boas chances de conseguir a indicação do partido, é a ex-prefeita Marta Suplicy. Tem excelente estrutura no PT paulista. E leva sobre o possível rival na luta pela candidatura oposicionista, Ciro Gomes, a vantagem de nunca ter pertencido a outra legenda.

Sarney total

Hoje, na Rede TV!, à meia-noite, o presidente do Senado, José Sarney, dá entrevista a Kennedy Alencar. Nada mais adequado para encerrar esta semana.

Dose dupla

A propósito, está tramitando discreta e rapidamente, na Câmara Federal, o projeto que cria mais sete mil vagas de vereador neste nosso país milionário. Lembre-se disso, para criar o clima adequado, ao assistir à entrevista de Sarney.

Demi e Redford genéricos

O senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima, líder do governo, estava dando uma entrevista quando foi abraçado por trás pelo senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Demóstenes, muito mais magro após uma cirurgia de estômago, murmurou a proposta ao ouvido de Jucá: "Jucazinho, vamos fazer as pazes"? Resposta do sorridente Jucá: "Tentando me pegar novamente pelas costas"? Não, caro leitor: não deixe que sua malícia o leve a pensar em coisas que não deve. Nem recorde o filme "Proposta Indecente", que não é disso que se trata: é que Jucá estava bravo com Demóstenes, que esperou que ele saísse para convidar Lina Vieira, ex-secretária da Receita, a falar sobre seu encontro com Dilma Rousseff. Não seja maldoso. Mas que o diálogo é pra lá de sugestivo, é.

Trabalhadores do Brasil

O jornalista Luiz Fernando Emediato, amigo do deputado Paulinho da Força, do PDT paulista, rebate nota desta coluna: diz que Paulinho costuma ir à Câmara às terças-feiras. Embarca para Brasília no primeiro voo, vai para o gabinete e trabalha como um mouro até quinta. Às vezes, chega a ir na segunda. Registrado.

Os amigos

Leda Maria Pessoa de Mello Cartaxo, funcionária do senador Roberto Cavalcanti, do PRB da Paraíba, foi exonerada no início da semana. Leda é filha de Otacílio Cartaxo, recém-nomeado secretário da Receita Federal, e antes disso o poderoso chefe de Gabinete da secretária anterior, Lina Vieira. Cavalcanti, o senador para quem Leda Cartaxo trabalhava, é acusado de lesar o Fisco. Os débitos de uma de suas empresas, de R$ 4,4 milhões, já inscritos para cobrança na dívida ativa, foram recalculados e caíram para R$ 39 mil. Há algo como cem ações contra ele, estaduais e federais, na Paraíba, em Pernambuco e no Rio de Janeiro.


(*) Carlos Brickmann, colunista do Observatório da Imprensa, do Diário do Grande ABC, antigo editor-chefe da Folha de São Paulo, é dono de invejável currículo no jornalismo brasileiro.


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DOS QUATRO CANTOS DO MUNDO

Al Qaeda está no Yemen
30/08/09 ImprimirImprimir   TopoTopo


Nahum Sirotsky, de Tel Aviv


O Yemen é dos países mais pobres do mundo. E tão rico em problemas que seu principal vizinho, a Arábia Saudita, contruiu uma Muralha para impedir que invadam o seu território.

Existem versões de que a rainha de Sabá que viajou ao encontro do rei Salomão, o sábio e construtor do Templo com quem engravidou, tinha seu reino na região.

Os judeus negros da Etiópia tem uma tradição de descenderem de Sabá. O pai de Bin Laden, um yemenita, fez sua fortuna na Arábia onde teve várias esposas e 52 filhos. A história mais recente é da menina yemenita, de 10 anos de idade, que o pai forçou a casar com um homem muito mais velho e teve a coragem de exigir e obter um divórcio. Fez nome internacional, mas continua vivendo em Saana, a capital, num dois quartos onde habita com a família e se sente discriminada. A lei muçulmana, a Shaaria, como aplicada no país, permite casar meninas de 10 anos até para serem a segunda esposa. A menina obteve o divórcio e a obrigação de indenizar o ex-marido com 200 dólares, uma fortuna.

Os sauditas podem justificar suas preocupações. Praticam o muçulmano sunita que se traduz por tradicional, herdado de Maomé, o profeta a quem a religião foi revelada. Quase todas as posições do Executivo são ocupadas por príncipes. Há dias o príncipe responsável pelo contra-terrorismo saiu ferido num ato de homem-bomba.

O governo combate o Al Qaeda de Bin Laden com o máximo de rigor. Consta que foram presos ou mortos os líderes do movimento no reino. "O atentado só aumentou minha determinação", declarou o Príncipe no hospital. Bin Laden condena a presença de "infiéis", não muçulmanos, no país onde nasceu Maomé, em Meca, a cidade mais sagrada do Islã. O Al Qaeda transferiu-se para o Yemen onde se instalou. O governo yemenita não controla todo o seu território. A população é na maioria pobre e muito crente. Não rejeita o pensamento do Al Qaeda.

O governo da Arábia construiu a Muralha para impossibilidar ou no mínimo dificultar que o Al Qaeda realize ataques. O atentado foi facilitado por ser Ramadã, o nono mês do calendário muçulmano. São trinta dias durante os quais a maioria do bilhão de crentes jejuam do amanhecer ao anoitecer numa entrega maior às cinco preces diárias a Alá, Deus. O movimento foi reforçado por veteranos das guerras no Afeganistão e Iraque, gente que nada teme, pois morrer em defesa da fé é ascender ao paraíso e uma vida melhor.

De passagem uma curiosidade. Os judeus yemenitas viveram centenas de anos no Yemen, onde eram considerados inferiores aos muçulmanos ultrarreligiosos, e preservaram o hebraico como língua viva. Vieram para Israel atraídos pela informação do retorno de David, o rei e Messias esperado. Na verdade, era David Ben Gurion o principal criador do Estado Judeu, um socialista não marxista para quem a religião pouco importava. Mas quando optou-se pelo hebraico como língua do país, pois espalhados pelo mundo os judeus falavam as línguas dos países onde se tinham assentado, havia necessidade de uma língua de unidade aceitável a todos. Escolheu-se a pronúncia yemenita.

O governo central do Yemen enfrenta uma revolta de muçulmanos xiitas ao norte e o Al Qaeda instalado no sul. O xiismo é seita muçulmana praticada pela maioria dos iraquianos, único país árabe onde predomina. É a praticada pelo Irã persa. As revoltas enfrentadas pelo Yemen teriam inspiração e apoio iraniano. O Yemen estaria recebendo ajuda saudita. Seria um confronto entre Arábia Saudita e Irã por meio de terceiros. Também haveria interferência de outros países do Oriente Médio. A incompatibilidade entre sunitas e xiitas explica as lutas no Iraque.

Pouco se acompanha os acontecimentos no pobre Yemen que tem localização da maior importância estratégica. É banhado pelas águas do Golfo de Aden, talvez a passagem marítima de maior movimento. Os serviços secretos americanos tem indícios da intenção do Al Qaeda de fazer do Yemen importante base de operações ameaçando o comércio marítimo que passa pelo Golfo o que implica ameaça a petroleiros.

Foi atribuido a um dos serviços de contraterrorismo a comparação do terrorismo com formigas. Fecha–se um formigueiro pensando que se resolveu o problema, mas logo surgem outros e outros. Há oito anos que americanos tentam destruir o Al Qaeda de cujas bases no Afeganistão partiram as instruções para o atentado a Nova Iorque. O Al Qaeda se espalhou usando todos os meios do internet ao facebook. Só tende a crescer.


Nahum Sirotsky é correspondente de Zero Hora no Oriente Médio e colunista do portal “Último Segundo”.


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Caderno Dois

Matinas
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Neide Archanjo


Alegra-me este setembro
com rosto de agosto:
céu plúmbeo ventos arados
algumas chuvas crescendo
figos úmidos e brandos e afáveis
mais estes insetos em bonança
gordos gatos.

Deus sorri
e deslocam-se ângulos
presenças
estados de espírito.
Renascem lembranças.

No corpo
o pássaro da pele
emplumado canta.




Mural

Infraestrutura sanitária, a marca do atraso
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Josef Barat (*)


Ampla matéria do Estado (Brasil tem 34,8 milhões de pessoas que vivem sem coleta de esgoto, 21/8, A25) abordou o retrato desolador da infraestrutura sanitária no Brasil, segundo pesquisa divulgada pelo IBGE. Fica claro que a tão decantada 8.ª economia do mundo não consegue oferecer a grande parte de seus cidadãos a cobertura necessária de serviços de esgotamento sanitário, tratamento e disposição (continua...)