Porto Alegre, 24 de agosto de 2009

EDITORIAL

Duas semanas de agosto
24/08/09 ImprimirImprimir   TopoTopo


Jayme Copstein



Adolf Hitler
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Esta semana e a próxima são historicamente importantes por se completarem 70 anos do início da II Guerra Mundial. Mesmo passado tanto tempo, as duas semanas permanecem no centro do debate que jamais cessou, em torno de acontecimentos considerados chaves no desencadeamento do conflito.

Adolf Hitler tinha se jogado em uma aventura por cujas consequências seus próprios generais temiam. Os historiadores e comentaristas de ambos os lados concordam que qualquer reação teria acabado com Hitler, a partir de março de 1934, quando ele ordenou a remilitarização da Renânia, pondo no lixo o Tratado de Versalhes, até setembro de 1938, quando obteve da Tcheco-Eslováquia, por imposição da Inglaterra e da França, a região dos Sudetos.

Na Renânia, o próprio batalhão aduaneiro francês seria suficiente para rechaçar os mal equipados e treinados soldados alemães. Ninguém se mexeu. Na anexação da Áustria, bastaria uma ação diplomática enérgica para sustar a ocupação, tanto assim que Hitler só se encorajou depois de ouvir a concordância de Mussolini, a qual agradeceu em célebre telegrama, no qual afirmava que nunca esqueceria o apoio recebido: "Nunca, nunca, nunca", escreveu. No caso dos Sudetos, os generais já se preparavam para prender o Fuehrer quando chegou outro telegrama, também célebre, do primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain, propondo a conferência em Munique e o consequente apaziguamento.

A partir deste ponto, as opiniões se dividem quanto à responsabilidade pelo curso dos acontecimentos. Acusa-se Stalin de ter dado carta branca a Hitler quando com ele entrou em conluio no Pacto Nazi-Soviético para retalhar a Polônia. Os russos se defendem com a tese de que o apaziguamento de Hitler era caso pensado das nações ocidentais, para que o confronto entre a Alemanha e a União Soviética enfraquecesse os dois países, para melhor dominar a Europa. Como prevenção contra os nazistas, era preciso avançar a linha de defesa até metade da Polônia.

Tudo pode ser afirmado e contraditado porque a elasticidade é a virtude e também o defeito das palavras. Hitler em "Minha Luta" expressou claramente que "o espaço vital" para o desenvolvimento da Alemanha estava no Leste, o que significava toda a porção europeia da URSS, uma imensidão de terras de cultivo e caudais de petróleo. Contudo, Stalin não temia as ambições de Hitler e surpreendeu-se quando foi atacado por ele. Fez todos os esforços para incluir a URSS no Eixo com a Alemanha, a Itália e o Japão e quase o conseguiu, mas as negociações não chegaram a bom termo por um detalhe: o domínio dos estreitos do Mar Negro (Bósforo e Dardanellos), para assegurar a presença no Mar Mediterrâneo, uma das mais antigas aspirações russas. Os alemães e os italianos não aceitaram.

Tudo isso tem sido alegado para se afirmar que a História seria outra, se não tivesse havido o Pacto Nazi-Soviético de agosto de 1939, costurado nestas mesmas duas semanas, passados agora 70 anos. Que a História seria outra, todos podemos ter certeza. Mas que outra História seria, é impossível de se dizer. Seria mera profecia.

Do que aconteceu, restou o depoimento mudo dos mais de 60 milhões de mortos que se calcula tenham sido vitimados pela II Guerra Mundial. Bem mais da metade foram civis indefesos, trucidados por bombardeios ou abatidos por doenças, fome e frio.


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DOS QUATRO CANTOS DO MUNDO

A ignorante condenação do Senado
24/08/09 ImprimirImprimir   TopoTopo


Nahum Sirotsky, de Tel Aviv


Como lembrei há dias, leio e escuto noticiários brasileiros enquanto o Brasil dorme. No relógio, quando são seis horas aqui o Brasil se prepara para dormir. Li no Estadão, onde sob o pseudônimo de Nelson Santos trabalhei anos, um convite para o enterro do Senado Federal. Não acreditei. Pensei que ao menos o sistema democrático de governo do Brasil fosse conhecido pelos brasileiros. Não é. Então, vou me permitir lembrar o que qualquer criança deve ter aprendido no ensino elementar ou básico. Matar uma instituição essencial para punir tantos políticos supostamente corruptos é matar a democracia.

Encabula o que vou escrever. Mas é algo que parece ter sido esquecido. País é um espaço ocupado por habitantes. O Estado, como há muito se descobriu, é um sistema, o conjunto de meios que o povo criou para que as pessoas de um país possam conviver. Equivale a uma empresa encarregada de prestar serviços essenciais. É só olhar ao redor e perguntar se indivíduos sozinhos, sem a concordância dos demais, poderiam decidir quem dos vizinhos terá água em sua casa. Se não existissem grupos – instituições – encarregados e pagos para prestar serviços de água, as famílias viveriam em luta. A vida em sociedade seria inviável.

O Estado precisa de funcionários permanentes e um governo para dizer o que fazer. Os governos totalitários são assumidos por grupos minoritários com o uso da força. As pessoas vivem sob o medo de serem punidos pelos que assumiram o governo do Estado sem consultar a ninguém. Mas o estado democrático imaginado na antiguidade pelos gregos é governado segundo leis. Nem o chefão, nem ninguém pode fazer o que quer. Têm de se submeter às necessidades populares e prestar contas ou, então, chegará o dia em que cairá no vazio da falta absoluta do apoio do povo.

Sistemas democráticos de governo cumprem a Constituição, a Lei Maior aceita pelo povo. Mas os países compreendem tanta gente que desde a Lei Maior até a menor ação do Estado dependem de meios de captarem e expressarem a vontade do povo. Então foram instituídos meios para representarem a vontade popular. Então foram criadas as representações desde o nível de bairro até a chefia do governo nacional que são eleitas em votação popular.

As representações decidem, mas alguém precisa agir. Então, para isso, há os Poderes do Estado. No caso do Brasil, tem-se o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. O Legislativo, que existe para decidir em nome do povo o que deve ser feito, consiste nas instituições cujos membros são eleitos, a Câmaras de Vereadores para cuidar do que carecem as cidades, Câmaras de Deputados Estaduais, que existem para dizer ao governador o que fazer e vigiar para que faça o melhor com o dinheiro recolhido dos cidadãos.

E o Legislativo Nacional que se concentra no topo. Os deputados são eleitos com o compromisso de cumprirem promessas de serviços exigidos pelos cidadãos. O Senado representa o Estado cujas preocupações e necessidades são discutidas pelos deputados e a eles encaminhadas.

O Senado é a peneira de tudo que os deputados aprovam. O Senado deve decidir o que é prioritário. O Executivo, o presidente determina a realização do necessário por meio de seus funcionários civis e militares. Ele se cerca de ministros e assistentes que devem ser especialistas nos campos para os quais designados como executivos, como responsáveis para realizarem o que decidiram os Poderes do Governo.

O Judiciário existe para garantir o cumprimento das Leis. E no sistema ninguém está acima dela. Se há erros, desvios de objetivos, ações incompetentes, corrupção, são coisas cometidas por indivíduos. Não se pode culpar instituições. É gente mal escolhida que tem de ser punida pelas chefias ou pelo povo em eleições. Ou pelo Judiciário que foi criado para ser o poder maior para fazer a lei respeitada. É tudo isso foi esquecido, Ninguém está acima da Lei num país no qual o povo conhece seus direitos e deveres. Mas, no Brasil, tem gente que se sente acima de tudo.


Nahum Sirotsky é correspondente de Zero Hora no Oriente Médio e colunista do portal “Último Segundo”.


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Caderno Dois

Matinas
03/05/10  TopoTopo

Neide Archanjo


Alegra-me este setembro
com rosto de agosto:
céu plúmbeo ventos arados
algumas chuvas crescendo
figos úmidos e brandos e afáveis
mais estes insetos em bonança
gordos gatos.

Deus sorri
e deslocam-se ângulos
presenças
estados de espírito.
Renascem lembranças.

No corpo
o pássaro da pele
emplumado canta.




Mural

Infraestrutura sanitária, a marca do atraso
03/09/10  TopoTopo

Josef Barat (*)


Ampla matéria do Estado (Brasil tem 34,8 milhões de pessoas que vivem sem coleta de esgoto, 21/8, A25) abordou o retrato desolador da infraestrutura sanitária no Brasil, segundo pesquisa divulgada pelo IBGE. Fica claro que a tão decantada 8.ª economia do mundo não consegue oferecer a grande parte de seus cidadãos a cobertura necessária de serviços de esgotamento sanitário, tratamento e disposição (continua...)