Porto Alegre, 04 de setembro de 2010

EDITORIAL

Tempo de verbo
04/09/10 ImprimirImprimir   TopoTopo


Jayme Copstein


O que um tempo de verbo pode fazer com a verdade acaba de ser demonstrado em episódio, envolvendo o Arcebispo Agostino Marchetto, secretário do Conselho Pontifício para os Migrantes e Itinerantes. O Vaticano viu-se obrigado a esclarecer equívoco não cometido por seu prelado e até agora não retificado pelos jornais que o publicaram.

Jornais europeus estamparam em 27 e 28 de agosto, manchetes afirmando que o Vaticano havia comparado a expulsão de ciganos, anunciada pelo presidente francês Nicolau Sarkozy, com o massacre praticado pelos nazistas contra judeus, eslavos, deficientes físicos e mentais e os próprios ciganos.

As reiteradas tentativas de antissemitas, de banalizar o Holocausto, para absolver o nazismo dos seus crimes contra a humanidade, faz com que analogias do gênero desencadeiem protestos, como aconteceu com as declarações do Dom Marchetto. O Governo francês que já enfrentava críticas da União Europeia, ofendeu-se ao ser supostamente comparado aos nazistas.

Só que o Arcebispo não afirmou que a expulsão de ciganos da França fosse um holocausto, mas apenas referiu-se aos riscos da generalização que, no passado, levaram ao Holocausto,

Textualmente, segundo o Portal Católico Zenit: “Quando acontecem expulsões, sofrimentos, não posso me alegrar pelo sofrimento dessas pessoas, em particular quando se trata de pessoas fracas e pobres que foram perseguidas, que foram vítimas, dessa forma, de um holocausto".

O Vaticano argumenta que a transposição do verbo conjugado no passado (foram) para o presente (são), mudou o sentido das palavras do Arcebispo. O jornal português “Expresso”, após afirmar que ele havia comparado a decisão do Governo francês com um “novo” Holocausto, publicou como declarações literais: "Não posso alegrar-me com o sofrimento dessas pessoas, em particular quando se trata de pessoas débeis e pobres que são perseguidas, que também são vítimas de um 'Holocausto' e vivem sempre escapando aos que as perseguem."

Outro trecho da entrevista, não enfatizado no noticiário, em que o Arcebispo ressalvava que punições não podem ser coletivas, já indicava o erro da transposição do verbo: “É preciso prestar atenção às diferenças e não podemos culpar toda uma população pela falta de cumprimento da lei por parte de alguns." Dom Marchetto estava se referindo ao preconceito que faz as pessoas generalizarem para todo o grupo étnico, religioso, político, social ou econômico eventuais infrações de alguns de seus membros.

A crítica mais sólida feita ao Governo Sarkozy é o de oportunismo: usar delitos e crimes protagonizados por alguns dos ciganos vindos da Romênia para expulsá-los todos da França. Tanto eles como os oriundos da Bulgária são pessoas pobres, marginalizadas em seus próprios países e que se aproveitaram do livre trânsito da União Europeia para buscar melhores condições de vida.

O problema é que não há como evitar conflitos quando culturas diferentes entram em contato. É necessário grande dose de tolerância e compreensão mútua, para que os problemas sejam superados. A prática é muito mais difícil do que sugere a teoria.


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Alegra-me este setembro
com rosto de agosto:
céu plúmbeo ventos arados
algumas chuvas crescendo
figos úmidos e brandos e afáveis
mais estes insetos em bonança
gordos gatos.

Deus sorri
e deslocam-se ângulos
presenças
estados de espírito.
Renascem lembranças.

No corpo
o pássaro da pele
emplumado canta.




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