Porto Alegre, 06 de setembro de 2010 

Marisa Martins


Caos
06/02/10 ImprimirImprimir   TopoVoltar

Na Venezuela,o caos instalou-se. A ditadura de Chávez, disfarçada em democracia, e sedenta de poder, torna-a uma terra antiestado de direito.

De volta ao Brasil, depois de estada na Venezuela, ainda estou perturbada. Precisarei dias para organizar e recompor não só neurônios, diodos, nervos em frangalhos. Também o material recolhido, em fotos, textos e conversas com venezuelanos.

Em regimes como os de China e Cuba, sabe-se o que espera. Os turistas, conhecendo as normas que regem os sistemas, têm mais facilidade de se adaptar a eles.

Na Venezuela, não. O caos instalou-se. A ditadura de Chávez, disfarçada em democracia, e sedenta de poder, torna-a uma terra antiestado de direito..

Não é terra sem lei. É uma terra com amontoado de leis, impostas por ele, diariamente. Para serem diariamente descumpridas ou cumpridas sob tacão militar, policial ou de milícias.

Assim, quem chega, não sabe como agir. Fica desnorteado.

Em São Paulo, jovem venezuelana, doutoranda em veterinária na USP, viajava para visita a familiares. Na fila de embarque, deu informações esclarecedoras e pessimistas, ao saber que passaríamos o Natal no país caribenho.

Inconformada, disse que o pior acontecera em seu país: não mais havia poderes independentes. O judiciário e o legislativo eram comandados pelo executivo. Ademais, as forças armadas também estavam nas mãos do presidente.

Alertou-nos que trocar dinheiro pela taxa oficial é correr o risco de ficar de bolsos vazios, pelos preços lá cobrados. A única solução seria recorrer a cambistas e negociar.

Já a bordo, conversando com a tripulação, não entendiam escolhermos a Venezuela para as festas de fim de ano. Enfatizaram para não sair do hotel, em Caracas, pela insegurança. Pior, o risco de prisão, se flagrados comprando Bolívares no câmbio paralelo. Comer? Com o câmbio oficial, só era viável consumir sanduíches em promoção, ao preço equivalente a 25 reais.

Dessa forma, antes mesmo de tocar em solo venezuelano, já passava arrepios pelo corpo.

Que agruras esperavam os brasileiros que acharam um botão – viagem com aproveitamento de milhas e três noites gratuitas em hotel de Caracas – e fizeram um terno? Este já se mostrava mal cortado e justo.

A recepção no aeroporto Simón Bolívar foi retumbante: enormes painéis com propaganda do governo recebem visitantes.

Para completar a acolhida, cambistas travestidos de funcionários do aeroporto grudavam-se nos passageiros, desde a esteira de bagagens, tentando vender Bolívares no câmbio negro.

Um caos que antecipava o caos vivido pelos turistas do botão...

PS: Os cambistas transitam livremente, indiferentes a cartazes que incentivam o denuncismo e a militares que fazem a segurança do aeroporto.

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