Porto Alegre, 19 de julho de 2010

EDITORIAL

A esquerda em baixa
19/07/10 ImprimirImprimir   TopoTopo


Jayme Copstein


Enquanto na América Latina, a esquerda só conseguiu progressos eleitorais aliando-se a manjados caudilhos populistas e a corruptos de todas as roupagens ideológicas, na Europa comentaristas políticos especulam se qualquer vertente do socialismo tem futuro.

As indagações nascem do desastre econômico a que partidos de esquerda produzem quando governam, como atualmente em Portugal, Espanha e Inglaterra, ou já governaram, como França e Itália, onde continuam a sofrer pesadas críticas.

Mesmo diante da crise que assola o mundo capitalista, a opinião pública europeia não se mostra condescendente com a esquerda. É que os anos de austeridade e contenção dos conservadores no Governo têm sido sistematicamente desbaratados em benemerências sociais sem pé na realidade. Aliás, é o que está acontecendo no Brasil de hoje em que os esforços do governo anterior, para alcançar solidez à economia e equilíbrio às finanças, têm sido malbaratados em projetos de perpetuação no poder da aliança que nele se aboletou para saquear o Tesouro.

O declínio político da esquerda europeia foi registrado sob o dramático título de “Os últimos dias do socialismo”, em matéria do International Herald Tribune, a edição internacional de The New York Times. Mas Bernard -Henri Lévy, ícone do socialismo francês, foi mais contundente: "Já está morto. Ninguém, ou quase ninguém, se atreve a dizê-lo. Mas todos, ou quase todos, sabem disso”.

A matéria publicada pelo International Herald Tribune resume artigo do próprio The New York Times, intitulada “Europe’s Socialists Suffering Even in Downturn” (Socialismo europeu sofre declínio).” É uma longa análise da situação político-partidária europeia. Dela se depreende que contribui para a agonia do esquerdismo europeu o fato de ser doutrina inspirada pela realidade do Século 19, mas superada por avanços tecnológicos do final do Século 20, como a globalização, por exemplo. Enrico Letta, jovem líder da esquerda italiana, confrontado com o populismo nacionalista de Berlusconi, assinalada a necessidade de “construir um centro-esquerda pragmático, como alternativa atraente e não mera oposição”.

Há certa semelhança com a situação brasileira, onde os partidos de esquerda, após anos de recalcitrante oposição, aliaram-se ao que havia de pior na prática política, para um projeto anfíbio de poder. Na superfície, a submissão aos corruptos e inescrupulosos sob o pretexto da governabilidade. Nas águas profundas, o aparelhamento do estado e as repetidas tentativas de impor uma ditadura dissimulada sob a máscara de “democracia direta”, criando de “conselhos” para controlar a justiça, a educação e a livre manifestação do pensamento através da censura à imprensa.

É evidente que Tony Judt, diretor do Instituto Remarque da Universidade de Nova York não leva em conta nem faz referência à evolução da esquerda brasileira ao se mostrar pessimista em relação à receita de Enrico Letta, mas a observação da coincidência de situações se legitima no comportamento semelhante dos “militantes”, aqui e na Itália. Judt é taxativo: "Não acho que o socialismo na Europa tenha futuro, e dado que é parte essencial do consenso democrático europeu, é uma má notícia ".

Resta saber para quem, se para a esquerda ou para todos nós, que devemos nos preparar para a violência do terrorismo, tal como ocorre quando esta gente não consegue impor-se pela convicção das ideias.


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DOS QUATRO CANTOS DO MUNDO

Política interna ameaça Israel
19/07/10 ImprimirImprimir   TopoTopo


Nahum Sirotsky, de Tel Aviv (*)


O Gabinete israelense pode cair por uma questão religiosa. O Partido Israel Nossa Terra, de ultradireita, liderado pelo imigrante russo Avigdor Lieberman, que integra o governo como Ministro do Exterior, pode ter desencadeado uma ao propor que a decisão sobre conversões ao judaísmo fique nas mãos do Rabino-Chefe.

O Judaísmo não possui clero. Os rabinos são doutores da lei e a eles cabe a interpretação do que está de acordo ou se confronta com os preceitos da religião. Atualmente, as atribuições do Rabino-Chefe, em essência um funcionário pago pelo Estado, limitam-se ao casamento e pouco mais,

A proposta do Partido de Lieberman divide o povo judeu. A religião tem inúmeras correntes e seitas. O rabino-chefe não tem nenhuma influência sobre grande parte dos ortodoxos que não reconhecem as leis do Estado e apenas seguem as multimilenares leis canônicas.

Parte deles sequer reconhece o direito de Israel de existir, pois está previsto há milhares de anos que o Estado judeu só pode ser restabelecido com a vinda do Messias, o que ainda não aconteceu.

Ao lado das inúmeras seitas ortodoxas alinham-se numerosas outras seitas não ortodoxas, denominadas conservadores, ou liberais, ou progressistas, ou reformistas, conforme sua maior ou menor adaptação aos tempos modernos. São adotadas pela maior parte dos judeus em todos os países.

A legislação proposta pelo Partido Israel, Nossa Terra faria com que só os que forem reconhecidos pelo Rabino-Chefe seriam considerados judeus. Sua principal consequência seria a invalidação prática da Lei do Retorno que assegura a qualquer judeu entrada livre e cidadania israelense.
Provavelmente, uma maioria dos judeus que vivem fora de Israel rejeitasse a mudança. Ela equivaleria à reforma do Cristianismo criada pela doutrina de Lutero. A confusão seria infernal. Boa parte da população israelense não pratica a religião. Boa parte de imigrantes provou apenas ter um ascendente judeu, como é o caso de imigrantes russos aqui chegados nos últimos dias da União Soviética.

Contudo, não é só em Israel que a religião tem tantas dissidências. Muçulmano é aquele que acredita que Alá é Deus e Maomé o seu profeta e mensageiro. É a crença dos sunitas, a seita majoritária. Mas os xiitas, outra seita importante, têm praticas consideradas heréticas como autoflagelação que praticam até sangrar. Veneram Ali, genro do profeta, cuja cabeça jaz sob uma mesquita no Iraque.

Existem outras seitas menores como alawitas, só para citar mais uma No Iraque grupos sunitas e xiitas continuam se matando. São inúmeras as seitas cristãs. A Basílica da Natividade é grego-ortodoxa; a Manjedoura está a cargo dos franciscanos. O Santo Sepulcro tem sua administração dividida entre cerca de dez seitas, com historia de desentendimento. Existem até seitas que pertencem a quem decide abrir um templo,

Não sendo teólogo, não sei a explicação.

(*) Nahum Sirotsky é correspondente de Zero Hora no Oriente Médio e colunista do portal “Último Segundo”.



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