Porto Alegre, 16 de julho de 2010

EDITORIAL

O telefone que o Brasil não ligou
16/07/10 ImprimirImprimir   TopoTopo


Jayme Copstein


O telefone que o Brasil não ligou – Jayme Copstein

Assisto a uma discussão antiga: por que os Estados Unidos são a potência industrial de hoje e o Brasil ainda luta para consolidar sua posição no cenário internacional.

Talvez seja mais simples do que se pensa, como pode ser demonstrado por inúmeros exemplos. Escolho, porém, o mais cabal dentre as muitas oportunidades que o país desperdiçou para crescer em tecnologia.

Inventado em 1894 pelo padre gaúcho Landell de Moura, o telefone brasileiro tinha sobre o aparelho criado por Alexandre Graham Bell a vantagem de não precisar de fios. Era o antepassado remoto do celular de hoje.

Em 1886, bem antes de Marconi, quando voltava para o Brasil após ordenar-se padre no Seminário Pio Americano e estudar física e química na Universidade Gregoriana de Roma, Landell de Moura já tinha concebido um sistema de radiotelefonia que utilizava propriedades do movimento vibratório.

Entre 1893 e 1894, passou da teoria à prática. Pároco em Campinas, demonstrou na cidade de São Paulo um de seus muitos inventos, o telefone sem fio, numa distância de 8 quilômetros, do alto da Avenida Paulista ao alto de Sant’Anna.

Tudo o que o padre Landell de Moura ganhou foi a fama de maluco, de espírita, de “partes com o demo”. Um dia, quando chegou em casa, vindo da igreja, encontrou a porta arrombada e seus aparelhos sem fio - o telefone, o telégrafo e o transmissor de rádio) completamente destruídos.

Contraste

Ernani Fornari, em “O incrível padre Landell de Moura” (Editora Globo, 1960), contou a saga deste inventor cujo pecado era o de ser brasileiro. Mas há um pormenor curioso e contrastante que deve ser acrescido à história: foi um brasileiro, o imperador Pedro II, quem chamou a atenção para o telefone de Alexandre Graham Bell e salvou o inventor da obscuridade.

Pedro II, amigo das ciências e das artes, não perdia oportunidade de se pôr em contato com o que de mais moderno a tecnologia da época sugerisse. Na ocasião, visitava uma feira de amostras em Filadélfia, Estados Unidos.

Era domingo, 25 de junho de 1876. Estava quase anoitecendo. Cansados, os juízes da exposição queriam encerrar as atividades do dia. Não tinham levado muito a sério a “coisa”, cuja invenção era disputada na Justiça por aquele escocês de nome comprido e pomposo que a trouxera, Alexandre Graham Bell, professor em uma escola de surdos-mudos, e Elisha Gray, inventor de Chicago. Um dos juízes apanhou o fone, examinou-o com pouco caso e o pôs de volta em cima da mesa. Fez uma piada a respeito e seus colegas caíram na gargalhada.

Neste momento, chegou ao estande o imperador Pedro II, que já conhecia Graham Bell e admirava seus métodos de ensino aos surdos-mudos. Os juízes, talvez por cortesia ao imperador do Brasil, talvez por curiosidade, mantiveram-se ali, assistindo ao desenrolar da visita.

Graham Bell estendeu um fio por todo o comprimento do salão e pediu a Pedro II que pusesse o fone no ouvido, enquanto ele ia para a outra ponta. Fez um silêncio que os romancistas da época com toda a certeza diriam “mortal”, só rompido pela exclamação de Pedro II:

– Meu Deus, isto fala!

Quando Graham Bell voltou para casa, não encontrou a porta arrombada nem suas coisas destruídas. Em compensação, menos de um ano depois a Bell Telephone Company já explorava 800 aparelhos em Boston. Dez anos mais tarde, o serviço chegava ao Rio Grande do sul, terra do padre Landell de Moura. À custa de divisas, naturalmente.


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