Porto Alegre, 06 de março de 2010

EDITORIAL

O pão e a cartilha
06/03/10 ImprimirImprimir   TopoTopo


Jayme Copstein


Os leitores Marina F. e César B. querem debater o bem do Brasil. Marina discorda das críticas ao governo, mas não vê no colunista a “obsessão anti-lulista, que não hesita em sacrificar o bem do Brasil porque não pode ver um trabalhador na Presidência”, como César argumenta.

A irritação de César não me faz ver nele um xiita militante, capaz de destruir o mundo para alçar-se à bem-aventurança de não sei quantas virgens. No fundo, está dizendo a mesma coisa que Marina: há pobreza e dela é preciso dar conta.

Nisso estamos todos de acordo, desde que não se reivindique o monopólio do comando para não transformar a solidariedade devida aos semelhantes em mera assalto contra os ricos, manipulando a pobreza para usá-la como massa de manobra. Os pobres continuarão pobres e alguns ricos, não todos, dividirão o butim com outros poucos novos ricos. E mais não digo porque a autoridade neste assunto é José Dirceu, o homem do mensalão.

Nossa principal discordância diz respeito ao verbo. Pobreza não se combate – supera-se. Assistencia social difere da caridade porque, em lugar da esmola que humilha e do catecismo que subjuga, ela leva o pão para saciar a fome e a cartilha para libertar da ignorância, abrindo ao ser humano os caminhos das suas melhores escolhas.

Kuan-Tzu, poeta chinês, disse isso há mais de 2700 anos ao escrever: “Se os teus projetos são para um ano, semeia o grão. Para dez anos, planta uma árvore. Para cem anos, instrui o povo. Semeando o grão, colherás uma vez. Plantando uma árvore, colherás dez vezes. Instruindo o povo, colherás cem vezes. Se deres um peixe a um homem, comerá uma vez; se o ensinares a pescar, comerá a vida inteira”.

Ilha da Fantasia

Os deputados federais aprovaram a destinação de dinheiros do pré-sal para o pagamento das aposentadorias e pensões da Previdência Social. Detalhe: o petróleo do pré-sal ainda não saiu do fundo do mar. Depende de financiamento internacional. Não se sabe quando vai acontecer. Nem se vai acontecer.

O governo já definiu a tarifa “econômica” do trem-bala (Rio – São Paulo), um dos grandes itens do PAC. Detalhe: sequer entrou no papel o edital de concorrência para qualificar quem quer implantar o trem bala. A não ser maluco de carteirinha, disposto a rasgar dinheiro, é de se duvidar que alguém queira entrar na jogada sem o Governo garantir subsídio para cobrir nos primeiros anos número insuficiente de passageiros.


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DOS QUATRO CANTOS DO MUNDO

Lula e o jogo de corpo
06/03/10 ImprimirImprimir   TopoTopo


Nahum Sirotsky, de Tel Aviv (*)


LULA PODE CHEGAR A ISRAEL DIFERENTE


Nos meios oficiais de Israel já se sabe da conversa do presidente Lula com a Secretaria de Estado, Hillary Clinton. Ouvi comentários de meios responsáveis, e alguém me disse que jamais soube de chefe de governo com semelhante jogo de corpo.

Até quinta-feira à noite, o programa da visita de Lula ainda estava sendo montado. Ele virá por dia e meio a Israel. O mesmo que dedicará à Autoridade Palestina e à Jordânia. Dorme uma noite em Jerusalém, uma noite em Belém e uma noite em Amã, capital da Jordânia, Somente em maio, portanto com bom intervalo, visitará o Irã. A diferença está em que visitou Israel antes na qualidade de líder sindical.

Lula será pressionado no caso do Irã, questão vital para Israel. Soube-se, claro, de Lula ter dito a Hillary Clinton que a posição que adota decorre da Constituição brasileira. Mas Israel deve pedir o voto brasileiro quando for apresentado ao Conselho de Segurança a proposta de sanções castradoras do poder iraniano. O voto brasileiro é da maior importância. Também se procura obter os votos da Turquia e do Líbano.

É possível que Israel apresente informações que Lula desconheça não só sobre o Irã como as relações incestuosas que mantém com o Hizbala e o Hamas e as ameaças disto decorrentes. Dos mísseis que têm em seus arsenais. Optou-se por entender que Lula terá dito que comprovado que o Irã fabrica a Bomba poderá mudar de opinião. Nestas horas nunca faltam circulação de diferentes hipóteses.

Mas é bem possível que Lula chegue a Israel num contexto de transformações. E uma atitude em favor da pacificação do Oriente Médio ganhe significado especial. O chefe do governo israelense, Bibi Netanyahu aplaudiu resolução dos 22 paises da Liga Árabe na reunião do Cairo aceitando sugestão americana de que as negociações de paz entre Israel e Palestina sejam imediatamente retomadas pelo sistema de proximidade. Mas por 4 meses apenas depois disso, dizem lideres árabes, se não houver progresso, que seja o que Deus quiser que pode ser o pior.

Por proximidade se entende que negociações podem ser num mesmo local apenas que os lados se falam por terceira pessoa. Ou podem ser com esta mesma terceira pessoa indo de Jerusalém israelense para Ramala palestina num ida e vinda até se chegar a bom resultado.

Na próxima semana chegam à região o vice-presidente americano, Joe Biden e o enviado especial de Obama, George Michel. Bibi afirma “estar convencido que a vinda de Biden contribuirá para avanço concreto do processo diplomático e existem indicações disto”. E acrescentou o chefe do governo israelense que “se tal sistema é necessário (da proximidade) nós aceitamos. Israel está pronta, pois desejamos retomar o processo diplomático e concluí-lo”.

(*) (*) Nahum Sirotsky é correspondente de Zero Hora no Oriente Médio e colunista do portal “Último Segundo”.


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“Não quero participar da política... A política não é o meu ofício; sempre me limitei a fazer pequeninos esforços para tornar os homens menos tolos e mais honestos. . ”

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Caderno Dois

Matinas
03/05/10  TopoTopo

Neide Archanjo


Alegra-me este setembro
com rosto de agosto:
céu plúmbeo ventos arados
algumas chuvas crescendo
figos úmidos e brandos e afáveis
mais estes insetos em bonança
gordos gatos.

Deus sorri
e deslocam-se ângulos
presenças
estados de espírito.
Renascem lembranças.

No corpo
o pássaro da pele
emplumado canta.




Mural

Infraestrutura sanitária, a marca do atraso
03/09/10  TopoTopo

Josef Barat (*)


Ampla matéria do Estado (Brasil tem 34,8 milhões de pessoas que vivem sem coleta de esgoto, 21/8, A25) abordou o retrato desolador da infraestrutura sanitária no Brasil, segundo pesquisa divulgada pelo IBGE. Fica claro que a tão decantada 8.ª economia do mundo não consegue oferecer a grande parte de seus cidadãos a cobertura necessária de serviços de esgotamento sanitário, tratamento e disposição (continua...)