Porto Alegre, 06 de setembro de 2010 

Fórum


Não há diálogo possível com a desumanidade
26/11/09 ImprimirImprimir   TopoVoltar

Ania Cavalcante (*)

Causa-me indignação e profundo estranhamento a visita de um ditador ao Brasil. Parece-me uma dicotomia irreconciliável o presidente do Brasil, um nordestino que lutou pela democratização do país, pelos direitos humanos e pelos direitos dos trabalhadores, receber no país e dialogar com um ditador de um regime autoritário, assassino, que desrespeita os direitos humanos e qualquer diversidade étnica e religiosa. Desrespeita e condena à morte. Prende e violenta seus presos. Um regime, cujo presidente chegou ao poder de modo fraudulento, contra o qual parte de sua população se revoltou e foi sufocada.

Os iranianos lutam por seus direitos humanos. Lutam contra as penas de apedrejamento, contra as prisões arbitrárias, as perseguições a dissidentes políticos e pessoas de religiões não-muçulmanas, como os bahai ´s e os cristãos

O Ministro de Defesa do Irã é procurado pela Interpol, como um dos comprovadamente responsáveis pelo atentado contra a Associação Mutual Israelita da Argentina, a AMIA, em Buenos Aires, um centro comunitário e educativo. Foi o maior atentado da América do Sul até hoje, onde 85 pessoas faleceram e centenas ficaram feridas. Abrir as portas de um diálogo com um regime que tem este ministro de defesa, é abrir as portas da violência e da intolerância, é colocar em risco o Brasil como local de um próximo atentado, e não necessariamente contra a comunidade judaica, mas também contra os bahaís, as mulheres, os homossexuais.

Receber alguém é compartilhar com este alguém algo em comum. Dialogar com alguém é trocar ideias, respeitar, não necessariamente concordar com o outro. O consenso tem suas armadilhas e, como diria Rosa Luxemburgo: “Freiheit ist immer Freiheit des Andersdenkenden”, que pode ser traduzido como “a liberdade é sempre a liberdade dos que pensam de modo diferente, dos dissidentes”. Mas aqui não estamos tratando de um “dissidente”, de alguém “que pensa de modo diferente”: mas do representante de um regime que persegue, tortura, assassina. Que busca apagar a História, as diferenças étnicas e religiosas, apagar um Estado do mapa, arrasar culturas.

A ditadura iraniana oprime os iranianos, proíbe a liberdade de imprensa, de expressão, prende e assassina aqueles que lutam pela democracia, pelos direitos humanos, e aqueles que não seguem a religião oficial. Trata-se também de uma ditadura das ideias, em que se nega o que chamamos o paradigma da barbárie do século XX, o maior crime documentado e comprovado da humanidade, o Holocausto, perpetrado pelos nazistas e seus colaboradores entre 1933 e 1945, que vitimou seis milhões de judeus, e milhares de ciganos, eslavos, homossexuais, opositores políticos, deficientes físicos e mentais.

Tratou-se de uma tentativa deliberada de exterminar todos os judeus e o Judaísmo da face da terra, e toda a dissidência política, ideológica e qualquer diferença étnica, um “assassinato em escala industrial” planejada, planificada por homens “inteligentes”: arquitetos e engenheiros que construíram campos de concentração e os campos de extermínio de Belzec, Sobibor e Treblinka, os médicos que realizaram experiências pseudo-científicas desumadas, os oficiais que assassinavam e torturavam sem nenhuma compaixão. Sem face humana.

Que tipo de futuro pretende construir o presidente do Irã? Que perspectivas para a humanidade ele nos traz, além de ódio, de negação da História, da humanidade, e da potencialidade de uma guerra nuclear que arrasaria parte ou toda a humanidade? O que ele ensina às crianças, que valores passamos às futuras gerações em um regime autoritário, violento, que cerceia a criatividade, a solidariedade, a liberdade, e a básica liberdade de pensar por si mesmo e de lutar por um mundo mais justo e igualitário?

Há algo de incompatível em receber o presidente do Iran, sem que isso pareça compartilhar de seus métodos e concordar com seu regime infame. Parece-me inverossímil estabelecer um diálogo possível com um assassino, com um negacionista. A única possibilidade que me parece plausível, verossímil, é estando este senhor no banco dos réus. Assim faríamos alguma justiça aos milhares que vivem nas prisões do Irã, e aos assassinados desse regime infame. Infame. Eu não tenho nada a ouvir desse senhor. Não há diálogo possível com a desumanidade.

Eu quero é ouvir as vozes dos que estão presos. Eu não as escuto. Eu gostaria de ter ouvido as vozes e conversar com os que foram assassinados. Esses, sim, merecem nosso diálogo, nosso respeito, nossa luta, nosso tempo dispendido por um pouco de justiça. Por vozes unidas, por um alento de humanidade.

Registro aqui minha indignação e minha solidariedade a todos que se manifestaram e se manifestam contra os assassinos, e contra os “assassinos da memória”. É realmente infame o momento histórico que estamos presenciando. E triste a postura do país onde vivo, este Brasil de exílios, de lutas, de acolhidas, de povos e etnias tão diversas, mas , com tal política, parece um incentivo de emigração ao “nuestro país Hermano”, a Argentina.

(*) Ania Cavalcante é historiadora e professora de Antissemitismo e Holocausto no Laboratório de Estudos sobre Intolerância (LEI-USP), professora e palestrante de Holocausto vinculada ao Yad Vashem (Escola Internacional de Estudo sobre o Holocausto) de Israel e professora nativa de Língua Alemã.

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OPINIÃO DOS LEITORES

morani [16/03/10 :: 19h43]
Junto minha opinião às de Gerson Guelmann e Noe Zamel. Não se pode admitir tantas falhas, quer no campo político como no campo diplomático. o senhor Lula conduz a Nação de maneira facciosa abraçando Ahmadinejad , mas se negando visita ao túmulo do homem que inspirou o renascimento de Nação Israel



Leopoldo Ruzicki [07/03/10 :: 8h00]
Neste maravilhoso artigo de Ania Cavalcante (Forum, 26/11/2009), ela expressa muito bem a preocupação quanto a aproximação do Brasil do democrata Lula ao Irã do ditador "eleito" Ahmadinejad. Concordo com todo o conteúdo do artigo, mas creio que não é de causar tanta surpresa tal aproximação. Lula e seus acólitos estão se aproximando apenas e tão somente de países onde está se instalado ou já se encontra instalada a censura de imprensa, o medo e a opressão. Ministros de Ahmadinejad são procurados pela Interpol? Dilma Roussef, a "Estela" e outros próceres do atual governo brasileiro, pelo menos até bem recentemente não teriam visto de entrada nos EEUU por sua participação de seqüestros, atos de terrorismo e "expropriações" bancárias (atos que, para muitos deles, valeram até polpudas aposentadorias). Lula visitou já por duas vezes, outro ditador - Fidel Castro - que mesmo não colocando Israel em perigo, é um ditador de esquerda. Amores perigosos, os escolhidos pelo nosso se dizente democrata Lula.



vitor [17/01/10 :: 9h55]
O descalabro deste governo começa e termina em ações desastrosas que nos lembram a corrupção galopante e a falta de parâmetros constitucionais, como a falta de isonomia, quando vemos não ser processado quem feriu o Caseiro Francenildo em seus direitos e prerrogativas, como sigilo bancário, quebrado criminosamente por um ministro de Estado, Antonio Palocci e pelo maior diretor da Caixa Econômica Federal e as falcatruas do "mensalão", dos "dólares nas cuecas", dos "sanguessugas", do "abafar" as investigações dos assasinatos do prefeitos petistas Toninho e Daniel e inúmeros outros que foram "ignorados ou escondidos" nas frinchas dos processos e desprocessos que foram arquivados! Que Deus permita que voltem o juízo e a ética aos homens públicos dos cargos dos três poderes republicanos e dos Tribunais de Contas, dos Ministérios Públicos e doutros órgãos de fiscalização com poder para colocar os pingos nos iiss e fazer valer a isonomia que tanto falam que existe na Constituição de 1988.