O mundo das marcas remete continuamente a sonhos, imagens e ideias sobre estilo de vida, ambiente, lar, família, boa alimentação, casa, oportunidades, segurança, conforto, fácil comunicação (automóveis, Internet, telefonia), lazer e férias. (continua...)
Ao aperto no coração acrescentou-se forte sentimento de culpa. Se aquele menino juntando terra, à beira da estrada, em um caminhãozinho, for atropelado, também serei responsável. Por omissão.
Dentre as estradas brasileiras palmilhadas nos últimos anos, as piores encontram-se em Alagoas e Pernambuco. Refletem o mau estado desses Estados nordestinos. Ambos tentam reerguer passado de (des) governos e de antigas histórias de coronelismo, currais eleitorais, mandonismos locais.
Ao adentrar em Alagoas, ao longo das grandes extensões de plantações de cana-de-açúcar, depara-se com espetáculo inusitado e deprimente.
Grupos de crianças, com pás e enxadas, carregam terra dos acostamentos (?), para tapar os buracos do asfalto. Pelo serviço, pedem (sem insistência) pagamento aos motoristas.
Conversei com as crianças tapa-buracos. Em pleno período letivo, hora de estarem em uma sala de aula, ali, sob o sol causticante, enchiam buracos, por um troquinho.
Risonhas, acorreram todas. Perguntei se estudavam. Disseram que sim, mas naquele dia não havia aula. Senti a mentira, pois se entreolharam.
Após tirar foto do pequeno grupo o coração ficou pesado. Crianças, sem infância e sem perspectivas, retratam um Brasil diferente daquele de discursos oficiais.
Mais adiante, menino de quatro anos, no máximo, já fazia sua parte na operação. Enchia pequeno caminhão de madeira, com terra, e o levava aos maiorzinhos, à margem da rodovia. Exposto a intenso tráfego. Os pais, por certo, cortavam cana.
Todos que por ali passam, como passei, por que não denunciam o fato?
Ao aperto no coração acrescentou-se forte sentimento de culpa. Se aquele menino juntando terra, à beira da estrada, em um caminhãozinho, for atropelado, também serei responsável. Por omissão.
Se aquelas crianças tapa-buracos trocarem a sala de aula por um dinheirinho, também serei responsável. Por omissão.
Tomara sintam mais sentimento de culpa do que senti, todos os que por ali passam e têm poder para tirar as crianças tapa-buracos das estradas.
PS: Escolas não faltam, pelo Nordeste. Dá voto construí-las. No entanto, encaminhar e manter as crianças nelas, que retorno eleitoral dará?